Meditação

MEDITAR , O VAZIO

Logo de saída, não acredito que o vazio possa ser dito. Se ele fosse algo, seguramente não seriam palavras escritas.

O vazio é isentar-se da mente, encontrar-se com o corpo e desporjar-se então, do corporal. Ascender ao livre flutuar de um caminho não sabido, possivelmente o que estabelece o pisar, supostamente seguro, sobre a fantasia de viver. Depois de alguns passos, descarregados da delusão de possuir por apego, tanto o desejo ou o medo, é neste fim que o amor acontece.
É ater-se ao abrir mão que o mudra universal impõem às mãos sobrepujadas e à postura esperada em meditação. Meditar é uma metáfora ao viver, respirar como preparação para a sofrível tarefa de acomodar as dores do corpo e tatuar as cicatrizes da alma.

Minha experiência com o Zen budismo é primariamente com o vazio. A experiência budista da vacuidade. O vazio do significado das coisas; a soltura do aprisionamento ao significado das coisas. No pensamento budista todo fenômeno é destituído de existência inerente e é vazio. Arrisco aqui que o vazio é inicialmente – com alguma disciplina ao meditar você a terá – a extensão da liberdade conquistada, quando a mente cede ao que na experiência da relação com o corpo, a racionalização sequestra.

No início meditar pode não ser simples. Mas a sensação de livre leveza quando os pensamentos suspendem a ruminação e corpo para de acusar as dores, é o anúncio do vazio. Incentivo que tente encontrá-lo e me comprometo a ajudar que o encontre. Encontrei o Zen num momento de grande envolvimento com a psicanálise e o apego. A circunstância importa muito pouco, a realização de transformar permite muito mais. Em determinado momento, é preciso se desapegar da ansia por mudar; exercício que remete ao vazio, onde espetacularmente acontece todo o resto da mudança.

A constatação da força, importância e recomendação de ir ao encontro do vazio não é exclusividade do budismo. Parece sim, olhando daqui, na prática da meditação – “o vazio me dita a ação em silêncio” – um inquestionável instrumento de liberdade. Nietszche e Lacan, sensíveis ocidentais, por exemplo, flertaram com a liberdade. Em suas filosofias a comum ideia humana sobre o sofrimento, a repetição e ao que há de menos sublime na oportunidade de viver – o anseio da vontade por preencher a existência, o ser, a vida, os amores, o que falta para que o eu encontre o desejo que parece me puxar em direção à vida.

O vazio em grande parte é isentar-se de si; reencontra-se no único lugar razoável em relação ao desejo. Um certo espaço e tempo em que existimos, nos reconhecemos e aos outros como solidários à vida. Somos e amamos. Não se trata de satisfações e prazeres. Nem tão pouco do contrário. Estamos uma eternidade distantes do sofrimento aí. Um lugar pelo inverso da conquista, presenteado por um sorriso de Buda.

Algo como o entendimento vazio de sentido, de quem assume pelo avesso a aventura de viver. Talvez o lugar onde muitos tratam como tocar a alma e que a maioria reconhece como sentir a vida. Uma experiência levada pelo ato de respirar, sentar, respirar, reparar, respirar, soltar, aliviar, continuar, caminhar, respirar, elaborar, abrir, respirar, permanecer, continuar… vazio.

Sergio Kaminski

Sergio Kaminski

Matemático por formação, é educador em projetos de tecnologia e aprendizagem. Acredita que meditar melhora a relação da mente com o corpo e da alma com o mundo. Acha a psicanálise uma sacada legal e que a educação transforma. Começou a meditar na Comunidade Zen-Budista de Curitiba e hoje prática Zazen costumeiramente em casa.

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