Vida e Bem Estar

PARE E RESPIRE!

As relações e os valores humanos são um tema de extrema importância nos tempos agitados em que vivemos. Pensando nisso, Vamos Meditar conversou com Simone Bambini, terapeuta de casal e família, formada pelo Instituto de Terapia Familiar de São Paulo, onde é professora dos cursos e capacitações.

VM: Por que você se interessou pela área de terapia de família e o que quer dizer isso?
SB: Sempre tive interesse pelas questões da criança, desde a época que eu era dentista, já tinha feito uma especialização em odontologia pediátrica, na USP. Daí, fui estudar antroposofia e o foco começou mesmo a mudar. Cedo, percebi que para ajudar a criança era preciso atender a família.

Além disso, quando iniciei meus estudos no assunto, na primeira aula do curso de Terapia Familiar, minha professora, Tai Castilho, uma das pioneiras no Brasil, falava sobre a interdependência, como as relações humanas eram interdependentes e eu comecei a ouvir um vocabulário conhecido porque já era budista, há alguns anos. Tudo aquilo começou a fazer sentido para mim em todas as esferas da minha vida, porque já não era apenas a minha crença, mas a possibilidade de eu estar no mundo da mesma forma em todos os lugares.

A abordagem da terapia familiar que utilizo no meu trabalho se apoia teoricamente na mudança de paradigma e a revisão da ciência moderna, tradicional e positivista. Esta ciência pós-moderna vem dos pressupostos da intersubjetividade, da complexidade, da instabilidade, ou seja da ideia de que quem está observando interfere naquilo que observa, de que pra entender um fenômeno você precisa compreender o contexto onde acontece, e de um mundo em constante transformação.

A terapia familiar é uma abordagem onde se cuida das relações. O foco é o que acontece nas relações. A terapia familiar cuida do “entre” e não do “intra”. O foco não é pensar na causa intrapsíquica ou problemas internos muito graves. O foco é entender o que está acontecendo nas relações para ver como isso pode ser transformado, como as pessoas querem começar a viver os relacionamentos nas suas vidas. Normalmente, é necessário conhecer as histórias das pessoas.

VM: E como se separa o “entre” do “intra”?
SB: O intra é uma responsabilidade sua, do indivíduo, e o entre é uma responsabilidade nossa, de todos os envolvidos nos relacionamentos. Precisa ser esclarecido que o que eu faço afeta o outro e vice-versa. E claro, para cuidar da relação, a pessoa também precisa se cuidar.

VM: Atualmente, qual seria uma questão muito comum?
SB: Ultimamente, as relações estão muito violentas, mesmo que não haja agressão física, é normal perceber a violência, por exemplo, num casal em crise. A falta de respeito entre outras coisas… é incrível ver até onde as pessoas conseguem chegar.

VM: Da onde você acha que vem toda esta violência?
SB: Dizemos que vivemos numa cultura de violência, onde muita coisa é considerada normal como xingar, berrar, “mandar para aquele lugar”, criticar e “tirar sarro” constantemente que, hoje, é conhecido como bullying, e isso não é normal. As pessoas nem se tocam mais que isso é violento. Quando eu nomeio este tipo de atitude para os meus pacientes como algo violento, eles se assustam e param para pensar.
Creio que essa violência começa em todos os lugares: dentro e fora de casa, com as pessoas que você encontra e convive, no trabalho, na escola com os professores e alunos. A cultura da violência está em quase tudo que vivemos

VM: O que você acha que funciona para mudar isso?
SB: Como diz o Lama Michel Rinpoche, primeiro, é preciso conscientizar para depois transformar. É preciso falar sobre o tema. Existem casos de violência física, mas também muitos de violência emocional e outras formas. Admitir que a violência está presente e decidir, se quer ou não continuar com ela dentro de casa, é necessário. É uma opção ensinar aos filhos a paz ou a violência. Precisamos optar pela paz. Sempre explico que a paz é a possibilidade de pautar todas as nossas ações na não-violência.

VM: Hoje, qual conselho você daria para as famílias, casais, irmãos?
SB: Parem e respirem (risos). Hoje em dia eu estou mandando todo mundo respirar. É incrível, como as pessoas andam respirando muito mal, muito pouco e respirar ajuda muito. Eu costumo pedir para respirar, para meditar. Ter um tempo para conhecer os processos internos é uma das coisas fundamentais na vida.

VM: Por que você acha que as pessoas estão respirando tão mal?
SB: Pressa, stress, ansiedade, urgência. Falamos tantas vezes a frase “não tenho tempo nem para respirar” que isso está se tornando uma realidade.
VM: Algo para se pensar…

 

Simone Bambini

Simone Bambini faz atendimentos em clínica particular e supervisões na clínica social do Instituto de Terapia Familiar de SP .  Também é membro do Grupo de Estudos e Prevenção da Violência Doméstica e Promoção da Paz (GEV Pró-Paz da Associação Paulista de Terapia Familiar) e é diretora de programas de cultura de paz, na Fundação Lama Gangchen para Cultura de Paz.
Contato: sbnegozio@gmail.com

Redação

Redação

Conteúdo sobre meditação, yoga e práticas afins, técnicas de autoconhecimento, terapias alternativas e complementares, entrevistas, informações sobre eventos, viagens, música, livros, arte e cultura em geral, alimentação com dicas, receitas culinárias e estilo de vida.

No Comment

Leave a reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *