Meditação

O TAOISMO E A MEDITAÇÃO. CINCO MINUTOS DO ETERNO E UM METRO QUADRADO DO INFINITO

As pessoas vivem 75% do tempo no passado, 20% no futuro e apenas 5% no presente. É o que constatou a pesquisa feita pela Maris Antropos Consulting, na França, e que foi citada na revista  Istoé , na edição de nº 2046, de 28 de janeiro de 2009.

Estes dados são espantosos! É assustador saber que ocupamos 3/4 do nosso tempo remoendo as coisas desagradáveis que algumas pessoas nos causaram, lamentando as coisas que sonhamos e que não aconteceram, sentindo saudades de um tempo maravilhoso que já se foi. Passamos muito tempo sofrendo remorsos pelas coisas que queríamos ter feito e não fizemos, sentindo arrependimento por algum mal que fizemos (ou achamos que fizemos) a alguém, ou criando alternativas de como poderíamos ter agido numa determinada situação. Quebramos a cabeça tentando entender porque aquela pessoa agiu daquela maneira conosco naquele momento, além de construir hipóteses como “se eu tivesse nascido nos Estados Unidos eu teria mais sucesso”, ou “se eu tivesse me casado com fulano(a) eu seria mais feliz”. E por aí vai.  A lista de pensamentos e sentimentos voltados para o passado é infindável!

Depois de ficarmos cansados de perder tanto tempo com as coisas do passado, projetamos a nossa mente para o futuro justificados pela ideia de que “é pra frente que se anda”. Tudo bem, isso é verdade, mas vamos devagar com a carruagem! Na estrada deste movimento automático para o futuro também entram outras carruagens carregadas de coisas pesadas como expectativas, apreensões, medos, inseguranças, desconfianças, fantasias, ilusões, escapismos, delírios, e outras cargas do gênero. E lá se vão mais 20% do nosso precioso tempo carregando a carga do futuro!

A ansiedade sobre o que está por acontecer vai ganhando terreno. Ficamos preocupados com a reunião que vamos ter na segunda-feira, tensos por não saber se vamos ser ou não demitidos nos próximos meses conforme os boatos que circulam nos corredores. Sentimos medo do futuro quando pensamos na velhice e na aposentadoria. Também sentimos inseguros se seremos ou não bons pais para os nossos filhos e se eles se darão bem na vida. Sofremos a expectativa de não saber se a pessoa por quem estamos apaixonados vai aceitar nosso pedido de namoro e a possibilidade de não conseguir comprar a casa própria nos deixa apreensivos. Ou, ao contrário de tudo isso, deixamo-nos levar pelas asas da ilusão e criamos um mundo cor-de-rosa, com situações ideais – e irreais – para o nosso futuro.

Repare que até aqui, já ocupamos 95% do nosso tempo! Praticamente o tempo todo foi gasto com preocupações referentes ao passado e ao futuro! E os 5% restantes, o que fazemos com eles? São nesses ínfimos 5% que temos a chance de viver o presente. É neste tempo que podemos sentir o perfume do sabonete e a água morna em nosso corpo durante o banho, de sentir o sabor dos ingredientes e dos temperos do prato no almoço.  É nesse espaço de tempo que podemos curtir a brisa suave que bate em nosso rosto no final de tarde, de ouvir o bem-te-vi, os sanhaços, os periquitos e a cambacica que cantam na sacada do apartamento. É nesses 5% que nos permitimos apreciar aquele livro de poesias do Manoel de Barros ou do Mário Quintana ou de ouvir com calma aquele CD preferido. É nesses pequenos momentos que temos a oportunidade de perceber que estamos vivos e que o nosso coração pulsa e o nosso pulmão respira, e que existimos neste mundo.

Não é triste? Dedicamos apenas 5% do nosso tempo para experimentar o prazer de viver, para fazer as coisas que realmente pode nos fazer sentir gratos por existir, para perceber que estamos vivos e fazemos parte no Universo. Isso é no mínimo uma ingratidão com a Existência, com a Divindade, com o Cosmos, com essa realidade maior, não importa o nome que se dê a ela.

Aqui cabe lembrar uma coisa óbvia da gramática, que é o tempo verbal. Usando a gramática, podemos dizer que no passado algo “ocorreu”, que no futuro algo “ocorrerá” e no presente algo “ocorre”. Só dá para ocorrer no presente, pois no passado já ocorreu e no futuro ainda ocorrerá. Se nos é dado a possibilidade de fazer alguma coisa, não é no passado nem no futuro, mas unicamente no tempo presente, no aqui e no agora. O passado é imutável e o futuro é um desenho nebuloso cercado de inúmeras probabilidades e incertezas. Somente o presente nos oferece o tempo e o lugar real para a tomada de uma ação concreta, efetiva, verdadeira, possível, mas, claro, dentro dos limites, das condições e das circunstâncias.

No presente, podemos fazer o que está ao nosso alcance. E isso é tudo o que temos e é tudo o que podemos fazer. Não é muito nem pouco. O presente não tem medida, não se consegue medir esse pedaço do tempo chamado presente. Ele apenas ocorre, ou está ocorrendo. É apenas a realidade. O presente simplesmente é.

No capítulo 64 do livro Tao-Te-Ching, escrito há mais de 2.600 anos pelo sábio chinês Lao-Tsé, lemos que “uma caminhada de mil léguas começa com o primeiro passo”. Não importa a extensão da caminhada, o importante é começar a jornada e ir seguindo passo a passo. Nossa atenção deve estar no passo que estamos dando no momento que caminhamos, sem ficarmos preocupados com a distância que ainda temos de vencer.

O I Ching, também conhecido como “O Livro das Mutações”, uma das obras fundamentais da sabedoria taoista, escrito há mais de 3.000 anos, nos ensina muitas coisas sobre como lidar com o tempo. No texto 52, intitulado A Quietude, encontramos a seguinte frase:

O homem superior (o sábio) não deixa seus pensamentos

irem além da situação em que se encontra.

Ou seja, o sábio sempre fica no aqui e no agora. Mais adiante, o livro traz um comentário igualmente realista e que merece reflexão: “Todo pensar que transcende o momento apenas faz sofrer o coração.” Nesta passagem, fica claro que se ficarmos pensando demais no passado ou no futuro nos afastamos da realidade do presente e acabamos abrindo brechas para a intranquilidade e a inquietude.

Já o texto 25 do I Ching, intitulado A Inocência, fala sobre as apreensões do futuro e as preocupações excessivas sobre os resultados. Usando uma linguagem metafórica sobre a lavoura, o livro traz as seguintes palavras:

Se não pensamos na colheita enquanto aramos,
nem no uso do campo quando o preparamos,
então será favorável empreender algo.

Isso significa que enquanto estivermos preparando o solo devemos apenas preparar o solo e não ficar pensando sobre o trabalho que vamos ter na hora de semear. E, do mesmo modo, enquanto estivermos arando o campo, devemos apenas arar o campo e não ficarmos preocupados com o momento da colheita. Cada coisa deve ser feito em seu devido tempo, na hora que tiver de ser feito. “Todo trabalho deve ser realizado por seu intrínseco valor, de acordo com o momento e as circunstâncias, e não com vistas ao resultado. Assim, qualquer trabalho frutificará, e tudo aquilo que se empreender terá sucesso”, diz o I Ching. De novo percebemos que as preocupações exageradas com o futuro e com os resultados não trazem qualquer benefício.

Mas a questão é: o que podemos fazer para ficar no presente e não sermos arrastados para o passado ou para o futuro, para as preocupações ou para as fantasias ocas? A resposta é: nada.

Como assim, “nada”? Por mais estranho que pareça, a melhor coisa a se fazer é justamente nada. Nossa mente pensa demais, não para de pensar, é um turbilhão de ideias, julgamentos, conceituações, planos. Temos preocupações com milhões de coisas que temos de cuidar no nosso dia a dia, nessa vida agitada e maluca dos nossos tempos. As demandas do cotidiano, a rotina, o trabalho, as contas, a competitividade, a necessidade de sempre se atualizar, os problemas de relacionamento, as questões de saúde, a burocracia, roubam nossa energia e o nosso tempo. Faz-nos esquecer de uma outra realidade que está acima desta existência mundana.

Aí, surge uma nova pergunta: o que é essa outra realidade que está acima desta existência mundana, e onde ela fica? A reposta é simples. Onde mais essa realidade poderia ficar a não ser no aqui e no agora? “Agora” quer dizer o momento presente, portanto se refere ao tempo. Com isso, podemos nos perguntar: quando começa e quando termina o agora? Que tamanho tem o presente? Não dá pra medir. É impossível. Só sabemos que estamos no presente e o passado ficou para trás. Mas até onde vai o passado? Não dá pra saber. Podemos dizer que o passado vai até a eternidade. E o futuro, até onde vai? Também até a eternidade. Então o presente faz parte da tríade “presente-passado-futuro” que chamamos de “tempo”, e que por sua vez faz parte da eternidade. O presente faz parte do Eterno e se estende por toda a eternidade pra frente e para trás.

Aqui” significa neste lugar, portanto se refere ao espaço. Mas acontece que “aqui” é só um pedaço do espaço que está à nossa volta. Atrás de nós, o espaço vai até o infinito. À nossa frente, o espaço também vai até o infinito. Para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, o espaço também vai para o infinito. Ou seja, “aqui” significa que nós estamos no meio do Infinito, do mesmo modo que o “agora” indica que estamos no meio do Eterno. O infinito e o Eterno são muito maiores do que nós, transcendem a nossa realidade, transcendem até mesmo a nossa capacidade de compreensão. O espaço infinito e o tempo eterno já existiam antes de cada um de nós nascermos e vão continuar existindo depois que cada um de nós morrermos. E tudo o que existe, seja um grão de areia, uma bactéria, uma planta, uma pessoa, um planeta, uma estrela, uma galáxia, um buraco negro, o universo, todas essas coisas fazem parte do Eterno e do Infinito.

Temos de lembrar que o tempo (o Eterno) e o espaço (o Infinito) são o substrato onde todas as coisas do universo existiram, existem e existirão. E no final das contas, o Eterno e o Infinito sabem o que estão fazendo. Tudo está funcionando perfeitamente. Como sempre funcionou.

No nosso dia a dia precisamos nos lembrar dessa realidade. Se reservássemos pelo menos 5 minutos do nosso dia para ficarmos quietos, vazios, apenas sentindo que fazemos parte do Eterno, isso faria um grande bem para nossa alma. E para isso só precisamos de um pequeno espaço, nada mais do que um metro quadrado onde possamos ficar sentados, sentindo que somos parte do Infinito. Fazendo isso vamos perceber que nosso corpo está no Infinito, no Eterno. Vamos perceber que tudo está acontecendo no Eterno e no Infinito. Nosso coração está batendo, nossas unhas estão crescendo, a Terra está girando, os pássaros estão cantando, o universo está se expandindo, os rios estão correndo, tudo isso dentro de uma dimensão maior. Não há necessidade de fazer absolutamente nada, tudo isso já está acontecendo no aqui, no agora. Tudo o que temos de fazer é ficar quietos alguns minutos, no presente, apenas respirando, apenas existindo, apenas conscientes dessa realidade maior que nos envolve.

Essa realidade transcendente pode ser vivenciada todos os dias, com pouquíssimas coisas, com quase nada. Bastam 5 minutos do Eterno e um metro quadrado do Infinito.

 

 

Roberto Otsu

Roberto Otsu

ROBERTO OTSU é professor de Taoismo e I Ching na pós-graduação em Psicologia Transpessoal no IPPT, Instituto de Psicologia e Práticas Transpessoais, autor dos livros “A Sabedoria da Natureza” e “O Caminho Sábio”, consultor de I Ching e de Astrologia.
E-mail: roberto.otsu@gmail.com  -  Site: www.robertootsu.com

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