Vida e Bem Estar

O ICHING E AS REFLEXÕES PARA 2015

Vamos Meditar resolveu fazer uma coisa diferente. Em vez de falar sobre o símbolo “regente” do I Ching (O livro das Mutações) para 2015, preferiu dar espaço para que o próprio I Ching nos indicasse textos de reflexão para o ano que se inicia. Questão definida, moedas lançadas e eis que o livro nos apresentou o hexagrama 52, A Quietude, com a quinta linha móvel, que fez gerar o hexagrama 53, Desenvolvimento (Progresso Gradual) como desdobramento.

Não sabe o que significa “hexagrama”, “quinta linha móvel”, “desdobramento”? Tudo bem, isso não tem importância. Vamos simplesmente ver o que o I Ching nos traz para reflexão.

ideograma

O primeiro hexagrama, A Quietude, se refere ao local onde tradicionalmente os sábios se retiram para meditar e fazer suas práticas espirituais: as montanhas. É um local pleno de significados. A montanha é grande, forte, sólida, segura, e por isso passa uma sensação de tranqüilidade, de serenidade, de quietude. Montanha também significa local elevado, o lugar na terra que fica mais perto do céu. Tem a ver com elevação, com as alturas, ou seja, com as coisas espirituais. Do mesmo modo, o retiro e as práticas meditativas também têm a ver com a busca da quietude, elevação, contato com o celestial, com força interior.

Na tradução de Richard Wilhelm do I Ching, encontramos as seguintes palavras:

“A Quietude. Mantendo imóveis as costas, ele não mais sente seu corpo…”

Algumas linhas abaixo deste texto podemos ler este comentário:

“As costas são mencionadas porque nelas se encontram as fibras nervosas mediadoras do movimento. Quando esses nervos dorsais são postos em repouso é como se o eu, com suas inquietudes, desaparecesse. Quando o homem alcança esta tranqüilidade interior, pode se dirigir ao mundo externo e já não verá nele a luta e o tumulto dos seres individuais. Tendo atingido a verdadeira paz, ele poderá, então, compreender as grandes leis do universo e agir em harmonia com elas. A ação que tem suas origens nesses níveis mais profundos não errará”.

Percebe-se claramente que o texto se refere às práticas meditativas, e, talvez, como sugere Wilhelm, também seja uma referência a exercícios de ioga.
Num outro momento, deparamos com o seguinte texto:

“… o homem superior não deixa seus pensamentos irem além da situação em que se encontra” (…) “Todo pensar que transcende o momento apenas faz sofrer o coração”.

Aqui, o I Ching nos alerta sobre a importância de ficarmos no aqui-agora e não permitir que a nossa mente se perca com as apreensões do futuro nem com os acontecimentos do passado, pois nestes dois casos estaremos fora e além da situação em que efetivamente nos encontramos. O fato é que não existe outra realidade que não seja o aqui-agora, e qualquer outro pensamento que esteja além deste tempo-espaço só vai nos causar sofrimento. As práticas de meditação e da ioga servem exatamente para isso: fixar nossa mente no momento presente, na consciência do que simplesmente é. Somente com esta atitude podemos atingir a quietude e a firmeza das montanhas.

Na parte que se refere à quinta linha móvel, o I Ching diz o seguinte:

“Mantendo imóveis as mandíbulas. As palavras estão em ordem”.
O texto se refere à necessidade de saber manter a boca quieta, de não falar demais. Quando somos discretos e sintéticos as palavras ganham muito mais precisão. A fala excessiva e argumentativa tende a gerar situações complicadas, discussões, mal-entendidos, que mais tarde podem nos causar arrependimentos. O I Ching nos ensina que é importante manter a quietude nos âmbitos do corpo, da mente e da fala.

Já no hexagrama 53, Progresso Gradual, temos o símbolo da madeira na parte superior e o símbolo da montanha na parte inferior. Madeira significa árvore. E montanha, neste contexto, representa rochas, pois as montanhas na China são rochosas. Ou seja, o hexagrama 53 é a imagem de um pinheiro que cresce na rocha.

As grandes lições deste símbolo são paciência, respeito ao tempo, suavidade e constância. Para conseguir crescer na rocha dura e árida, uma árvore precisa de todas estas qualidades. Para uma planta, crescer em um terreno úmido e fofo é muito fácil e rápido. Num pântano, então é mais fácil ainda. Agora, crescer num terreno inóspito e seco como as encostas rochosas de uma montanha é outra história. Requer mais tempo, mais força, mais determinação, mais paciência.

As plantas que crescem em terra fofa ou num pântano podem ter um desenvolvimento rápido, sim, mas, em compensação, podem ser arrancadas do solo com muita facilidade. Os pinheiros que se enraízam nas rochas, não. É praticamente impossível desenraizar um pinheiro das pedras. Não há vendaval, tempestade ou tufão capaz de arrancar a árvore que se desenvolveu na montanha rochosa.

A lição é muito clara: não adianta crescer rapidamente, o que importa é desenvolver as raízes, é estabelecer as bases, os alicerces, mesmo que isso seja muito mais demorado, mesmo que o terreno não seja tão favorável. O pinheiro aproveita toda e qualquer fenda, penetrando suavemente os caminhos abertos ou vai rompendo lentamente a rocha dura para conseguir fincar suas raízes. E faz isso com perseverança, com suavidade, com constância, pouco a pouco, mas vai ficando cada vez mais firme, cada vez mais sólida.

É claro que essas imagens do I Ching são simbólicas e não se referem unicamente à Natureza, às montanhas e às árvores. Também constitui um conselho para nós, seres humanos. Afinal, o ser humano também faz parte da Natureza e é igualmente regido por suas leis. Não existem leis VIPs para o ser humano. Não temos este privilégio. O que rege a Natureza rege o homem, em todos os âmbitos. Por isso, no hexagrama 53 encontramos as seguintes palavras:

“Uma ação precipitada não seria benéfica” (…) “Em relação à vida interior, o desenvolvimento deve seguir o mesmo curso, caso se queiram alcançar resultados duradouros” (…) “Nenhuma influência ou despertar repentino pode ter efeito duradouro” (…) “O próprio caráter gradual do desenvolvimento torna necessária a perseverança, pois só ela poderá garantir-lhe a eficácia”.

Aqui percebemos que o I Ching nos alerta que até mesmo o crescimento espiritual deve seguir o caminho da suavidade, da constância e da perseverança. Não se deve buscar a iluminação rápida, a sabedoria súbita, a revelação instantânea, um despertar relâmpago como se fosse um resultado da meditação e de outras práticas espirituais. Experiências repentinas desse tipo muitas vezes não possuem raiz, não têm base, podem não se sustentar. São como plantas de pântano e não como pinheiros nas rochas.

Enfim, para 2015, o I Ching pede que reflitamos sobre a importância da meditação e da quietude, mas que as pratiquemos com suavidade, constância e perseverança, pois só assim os efeitos serão duradouros. Devagar e sempre: esse é o melhor caminho para o crescimento. Em tudo.

Roberto Otsu

Roberto Otsu

ROBERTO OTSU é professor de Taoismo e I Ching na pós-graduação em Psicologia Transpessoal no IPPT, Instituto de Psicologia e Práticas Transpessoais, autor dos livros “A Sabedoria da Natureza” e “O Caminho Sábio”, consultor de I Ching e de Astrologia.
E-mail: roberto.otsu@gmail.com  -  Site: www.robertootsu.com

1 Comment

  1. Syrlene Zamprogno
    24 February, 2015 at 8:26 — Reply

    Roberto, gostaria de adquirir os seus livros. Informe-me a editora ou como posso faze-lo.
    Gratidão, Syrlene.

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