Crescimento Pessoal

O AMOR E A IDOLATRIA

Desde sempre, descrito na história, lendas e mitologia, as pessoas vem sendo retratadas como seres que projetam o poder fora de si. Em Deus ou deuses, no chefe da tribo, reis e imperadores, nos políticos, no pai, na mãe, professor, no mestre espiritual, ou seja, em outras pessoas que representem alguma forma de poder. Hoje, além de todos os citados, ainda temos os ricos e famosos que passaram a ser os ídolos vivos da nossa sociedade, sem falar nos virtuais.

Projetamos os nossos anseios, vontades, expectativas sobre estas pessoas mediante a imagem mental que temos e procuramos nos cercar delas como se desta forma sobrasse um pedacinho destes seres para nós, como se de alguma maneira houvesse uma transferência que nos tornasse mais especial. Desta forma, desprezamos o único poder que deveria nos interessar: o que temos dentro de nós mesmos.

Este tipo de postura mental tem deixado marcas muito profundas na nossa psique, pois inconscientemente passamos a acreditar que o verdadeiro poder só se encontra fora de nós. Como no fundo, todos desejamos este poder, começamos a confundir amor com idolatria.

Desta forma, os nossos valores também correm o risco de ficar distorcidos. Por exemplo, deixamos de cogitar trabalhar em algo que realmente amamos para nos tornar profissionais de carreiras que dão prestígio e dinheiro. Muitas vezes, o condicionamento é tamanho que nem paramos para avaliar que profissão estaria de acordo com a nossa personalidade ou nossas características. Também temos a clássica busca pelo príncipe encantado, que nos salvará da caverna do dragão ou ainda pelo mestre espiritual que é tão santo e poderoso que resolverá todos os nossos problemas ou, simplesmente, o ídolo que nos dará 5 segundos de glória imortalizados numa foto.

Isso tudo é muito grave, porque projetaremos estas expectativas em cima de questões idealizadas, que de real não terão nada, às custas de nossa autoestima. Quantos de nós não percorremos a vida buscando algo que projetamos? Conseguindo ou não, isso será causa de sofrimento. Será só uma questão de tempo.

Quando criamos expectativas na nossa mente, muitas vezes criamos também uma relação que nunca será de amor e sim de idolatria. Esta situação é algo muito difícil de compreender e separar. Só tomamos consciência disso através do sofrimento e é, por isso, que tantas desilusões e mágoas acontecem durante a nossa jornada. Creio que todos temos uma lista destas situações e estas projeções são meras delusões que não permitem que o verdadeiro amor floresça na nossa vida.

Experimentar a idolatria talvez faça parte do processo de aprendizado rumo ao amor verdadeiro porque a nossa mente é culturalmente treinada para idolatrar e não para amar. Só conseguimos entender se a raiz da nossa motivação em direção a algo ou a alguma pessoa é um sentimento de amor verdadeiro quando as nossas projeções se desconstroem. Por exemplo: se aquela pessoa rica e linda com que nos casamos continuar despertando os mesmos sentimentos após ficar pobre ou doente, se continuarmos admirando e respeitando um governante após ele sair do poder ou devotados a um mestre espiritual após ele resolver levar uma vida mundana. Aonde estava o respeito e o amor? Na pessoa ou naquilo que ela representava.

Tenho visto muitas pessoas em posições de destaque sofrendo muito com medo de descobrir que não serão amadas se não conseguirem sustentar sua autoimagem, pois no fundo sabem que as relações são muito frágeis. Muitas descobriram que realmente não eram amadas por tantos quanto imaginavam, mas passaram a ter a certeza do amor das pessoas que ficaram.

E voltando ao início, tudo isso ocorre por um simples motivo: entregamos o nosso poder a outras pessoas. Delegamos a responsabilidade pela nossa felicidade e deixamos de viver a nossa vida. Ficamos felizes no sonho do outro, não vivemos os nossos próprios e, desta forma, viramos uma sombra de nós mesmos.

Uma vida projetada nem sempre será uma vida realizada. Este é o sonho, a ilusão na qual vivemos e da qual precisamos nos libertar. Só assim deixaremos de ser lagartas e nos tornaremos borboletas.

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

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