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NÓS E O SISTEMA

Estamos realmente presos ao sistema?

Num painel sobre educação, na Virada Sustentável, ouvi algo que me marcou muito: ser autossuficiente, garantir a sua própria sobrevivência é o que nos liberta do sistema. Parecia tão óbvio e, ao mesmo tempo, uma ideia totalmente nova a ser desenvolvida.
A partir daí, comecei a observar o que seria este sistema e como nos vemos tão embrenhados nele, que realmente parece que seria impossível viver sem. Alguns diriam que seria quase uma loucura sobreviver abrindo mão, por exemplo, do sistema bancário. Afinal, quem iria guardar o nosso “farto” dinheiro, e nos fazer acreditar que temos mais do que realmente temos com as suas linhas e cartões de crédito, cujos juros, estes sim bem “made in Brazil”, serão prontamente cobrados? Sem falar nas especulações do sistema financeiro que levam o mundo à falência num piscar de olhos. Ou quem ficaria sem um plano de saúde, que pagamos caríssimo e recebemos um péssimo tratamento. Além disso, após décadas pagando um plano de saúde, uma pessoa corre o risco de ficar sem a cobertura quando mais precisa.

Também temos os sistemas de abastecimento e saneamento, de ensino e de tantas outras coisas que, hoje, são consideradas partes vitais na vida de milhões de pessoas e estão nas mãos de alguns poucos que nem percebem a importância do seu trabalho ou sequer se importam com isso, claro, com raras exceções. E o nosso sistema político é uma prova disso. Pelos parcos serviços que recebemos e escândalos vistos por todo país, como podemos acreditar que estas pessoas no poder público, que são sempre as mesmas, se importam conosco de verdade.

Mas o sistema capitalista, aquele que declaradamente visa o interesse maior de poucos, que consegue fazer com que um telefone celular e uma TV por assinatura se tornem mais importantes para a população do que as reivindicações de melhorias na educação ou no saneamento básico, este sim, me chama muito a atenção. Ele não se fez sozinho, não cresceu sozinho como um polvo de múltiplos tentáculos dentro da nossa sociedade. O sistema capitalista, da forma que se encontra hoje, foi solicitado, alimentado e todos fazemos parte disso, mas tento lembrar quando eu comprei o ticket de entrada para ele e não consigo. Nasci nele, fui educada e criada nele.

Provavelmente, a criação destes sistemas teve o objetivo de servir a um maior número de pessoas da melhor forma possível, mas neste caminho, perdemos a nossa humanidade. Hoje, percebo que se a automação não tivesse se desenvolvido tanto, estaríamos todos com problemas muito grandes porque a maioria dos poucos seres humanos envolvidos nos serviços, perderam a sua humanidade, que era a única coisa que nos fazia melhor do que as máquinas. Ao nos relacionarmos com a tecnologia, fazemos as coisas compreendendo a limitação da máquina. Quando somos atendidos por uma pessoa, mesmo que inconscientemente, esperamos um atendimento humano, solidário e minimamente empático e o que encontramos são pessoas com respostas automatizadas, que só sabem falar que o sistema não permite isso ou aquilo, com respostas prontas e que ajudam quase nada.

As pessoas que ainda se importam, sofrem muito dentro do sistema e quando elas se rebelam contra ele, tentando fazer algo melhor, são punidas e perdem o seu brilho. E é desta forma que temos sido criados por muitas gerações. Somos filhos de um sistema que não se sustenta mais.

Sendo honesta, no mundo corporativo já existem algumas iniciativas de grandes empresas com um “modus operandi” completamente contracultura e fora do sistema, para com os seus funcionários. Só não tenho claro se isso extrapolou também para o tratamento dos seus clientes. Ou seja, se é mesmo uma nova cultura empresarial nascendo ou é apenas uma decisão de negócios baseada num diagnóstico de que o modelo de relacionamento empregatício tradicional, nunca funcionaria para o perfil de pessoas que estas instituições precisavam ter como funcionários.

De qualquer forma, observando o aqui e agora, o sistema transformou as pessoas em seres tão infelizes, que daí para virarmos autômatos, dominados por ele e sem vida própria foi um pulo. Quantas são as pessoas que vão todos os dias para o trabalho sentindo-se mal, com vontade de sair correndo? É por que o trabalho deles é ruim, menos nobre, paga pouco? Ou é por que eles sabem que se tornaram mais um número numa folha de pagamentos, uma peça no tabuleiro e perderam completamente o controle de suas próprias vidas e decisões? Foram, literalmente, engolidas pelo sistema e suas regras. Regras de resultado, de comportamento social, de conduta, de vestimenta, de preferência sexual, de tudo.

Também na Virada Sustentável, ouvi no painel de economia social, uma pessoa sendo criticada por ajudar outras a viverem melhor, pois elas moravam fora da legalidade, fora do sistema. Daí, lembrei algo que ouvi um mestre dizer, em uma das suas aulas sobre a história espiritual da humanidade, que muitas vezes a espiritualidade se manifesta nos momentos de intersecção que acontecem durante a vida, onde a pessoa tem que escolher entre o que é certo fazer para o sistema e o que é certo fazer num nível humano. Estas duas coisas estão ficando cada vez mais distantes e, sinceramente, não sei se é porque o sistema é desumano ou as pessoas que fazem parte dele estão cada vez mais desumanizadas e impotentes. Não importa se são altos executivos, empresários, garis, atendentes de caixa e telemarketing, mas se estas pessoas entendem o papel delas na sociedade, e se sentem felizes em poder fazer parte de algo, de servir ao próximo como gostariam de ser servidas e tratadas. Parece piegas, mas é uma visão básica da qual sinto cada vez mais falta.

Antes, via algumas iniciativas de comunidades ecológicas ou de pessoas que, por exemplo, tentam ter a sua própria horta orgânica, fazer seus produtos de beleza, seus remédios e educar os filhos em casa, como muito bacanas, mas um pouco românticas para a com realidade. Começo a perceber que eles estão muito mais conectados com o que realmente precisa ser feito para sobrevivermos daqui para frente e também com a sua essência, com a sua liberdade. Estão escolhendo e tentando viver de forma mais saudável e sustentável, criando autossuficiência e caminhando para a sua independência do sistema.

Eu sei que até as flores nascem no asfalto, mas quanto tempo elas conseguem sobreviver nele? Começo a olhar cada uma destas pessoas como corajosos empreendedores, os novos colonizadores que carregam a semente da esperança de um dia resgatarmos a nossa humanidade.

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

1 Comment

  1. 20 September, 2014 at 17:44 — Reply

    Estou adorando o vamos meditar!
    conteúdo, colaboradores, arte… parabéns!

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