Crescimento Pessoal

FELICIDADE. A MINHA, A NOSSA, A DE TODOS

“O ser humano é inerentemente contraditório.” Esta frase proferida há muitos anos atrás por um amigo, na época, me chocou. Como assim? Eu achava que uma das grandes virtudes que uma pessoa poderia ter era a coerência. A congruência das palavras ou atos, pensamentos e emoções de alguém era uma condição para que uma pessoa fosse minimamente confiável. Hoje, dou risada da minha ingenuidade, de não conseguir enxergar o paradoxo existente na natureza como um todo. Agora, compreendi que este completo e perfeito alinhamento é algo a ser almejado por todos, mas ainda é atributo apenas dos Buddhas, dos seres iluminados.

Infeliz ou felizmente a vida e o ser-humano possuem muitas camadas e entre elas contamos inúmeras mentiras para nós mesmos. Muitas delas são apenas mecanismos de autopreservação, de proteção para aquilo que existe dentro de nós e que ainda não conseguimos lidar, e que são a fonte de muitas das nossas contradições.

Contradições que se revelam em coisas simples do cotidiano, como as que fazem mães quererem que os filhos cresçam fortes e independentes, mas tem atitudes superprotetoras; expressões de amor que se manifestam em críticas e humilhações diárias entre amantes, amigos e parentes; vontade de nos sentirmos bem em nossa própria pele enquanto ingerimos diariamente alimentos que nos fazem mal a saúde.

Mas algo que me bateu muito forte nestes dias é o quanto desejamos ser felizes de forma muito egoísta. Sabemos que a base da verdadeira felicidade está no desejar a felicidade do outro, um sentimento que é movido pelo coração, que não precisa de nenhuma aprovação externa ou carece de julgamento. Porém, as ações que geram esta felicidade ainda são muito pouco praticadas.

Ao contrário, para sermos felizes, queremos as nossas necessidades atendidas sem realmente nos preocuparmos com a dos outros sejam estes pais, filhos, amigos, companheiros, chefes ou qualquer outra pessoa com quem nos relacionemos.

Numa sociedade na qual o ato de “servir” verdadeiramente ainda é tão pouco praticado, são raros os momentos que conseguimos sentir esta felicidade que preenche por fazer o outro feliz. A troca precisa ser muito mais “interessada” e “endereçada”.

Por outro lado, às vezes, também podemos achar que sabemos a chave da felicidade de alguém quando de fato ainda não compreendemos nem a nossa. Buscamos um padrão de felicidade, um sentido e uma coerência que muitas vezes não existem porque, como a história diria, a beleza da vida está na fluidez do caos.

Dai volto ao grande paradoxo da felicidade porque percebo o quanto somos egoístas e como a infelicidade de alguns é o principio da felicidade de outros.

Ficaremos felizes se o outro aprovar a nossa fórmula de felicidade e não conseguimos obter a mesma felicidade apoiando incondicionalmente. Nossa felicidade está muitas vezes condicionada a infelicidade do outro, ao “vencer”. Não nos contentamos em Ser. Necessitamos ser também seguidos e aprovados.

Precisamos urgentemente nos liberarmos deste ciclo vicioso e, ao mesmo tempo, é preciso colocar limites, é preciso orientar, é preciso Ser sem detrimento a nós mesmos ou ao outro. Hoje, esta conta ainda é muito difícil de fechar.

Em uma viagem ao Peru, durante um almoço ao ar livre na ilha de Taquile, no lago Titicaca, conversando com o rapaz que nos atendia de garçom, descobri que ele não era “funcionário” do lugar. Era voluntário. Me contou que lá, entre outras peculiaridades locais, eles trabalhavam 1/3 do tempo para ganhar dinheiro para si, 1/3 do tempo para a família e 1/3 para alguém da comunidade como voluntário. Simples assim, estes modelos já trazem na sua raiz cultural a importância do indivíduo e da sua relação com as outras dimensões que fazem parte da sua vida. Este modelo onde se faz necessário a compreensão que engloba o “eu- eu e o outro – eu e o todo” apenas recentemente tem sido ressaltado e valorizado pelos estudiosos das ciências humanas e da administração. Encontramos esta base seja na Comunicação Não-violenta de Marshall, nos 3 tipos de foco de Daniel Goleman ou na Teoria-U de Otto Scharmer.

Porém, como boa parte do mundo carece desta visão e ainda está muito distante destas práticas, talvez o único jeito de convivermos com tantas contradições seja mesmo o processo de tentativa e erro. Na era da inclusão, talvez, como diria o Lama Michel Rimpoche, tudo é válido contanto que funcione. Como o que funciona é algo muito particular para cada um, não sei ao certo quais conceitos e leis existirão daqui a 100 anos.

A única coisa que a cada dia mais me convenço, é que o caminho da evolução da consciência, da prática da gentileza e da generosidade, é sem volta. De outra forma, será muito difícil lidarmos com este mundo cada vez mais complexo, contraditório e extraordinário.

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

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