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DESCOBRINDO O PODER DA TENDA XAMÂNICA DE CURA

Estou numa fazenda em Ibirá, cidadezinha cerca de 50 km de São José do Rio Preto. São 10 horas da manhã, início de lua nova em câncer, solstício, tudo perfeito e, finalmente, estou a poucos metros da minha primeira tenda de suor xamânica.

Normalmente, esta cerimônia é conhecida como temazcal, mas o Condor Blanco, instituição de origem chilena que promoveu a cerimônia, chama a mesma de kainapi e, por isso, utilizarei este nome.

Sempre tive certa apreensão em viver esta experiência, porque nunca fui muito chegada em uma sauna. Tinha medo do corpo não segurar a onda. E já na chegada, precisamos preencher uma ficha de antecedentes de saúde, onde saltava a questão da minha pressão alta. Aiai…mas achei bacana a seriedade.

Depois, já reunidos para começar a cerimônia, logo de cara, Sumay, o guia do kainapi, juntou o grupo para dar algumas explicações e finalizou dizendo, claramente, “entramos juntos e só podemos sair juntos, concordam?”, perguntou. Concordei como todo mundo, mas na minha cabeça pensei: eu sei lá! Nunca fiz este negócio pra saber como vou me sentir! Este ano, eu já tinha passado por uma experiência difícil numa cerimônia de outra linhagem espiritual, que tinha esta mesma “pegada” de quem começa não pode sair até acabar. Tentei desapegar desta lembrança e segui em frente.

Primeiro, passamos por duas etapas de limpeza. Recebemos sal grosso no corpo todo e, mesmo querendo ser respeitosa, confesso que foi uma sensação engraçada para um principiante ter alguém berrando e atirando sal em você. Depois, na entrada da área onde está a fogueira e a tenda, passamos por um defumador e ganhamos um fio vermelho que é amarrado no pulso esquerdo.

Ao entrar no espaço protegido, formamos um círculo ao redor do fogo, fizemos invocações aos 4 pontos cardeais, cantamos e dançamos um pouco, e fizemos uma oferenda de pó de tabaco na fogueira. Até ai, tudo dentro do esperado.

Finalmente, entramos na tenda que deveria ter uns 3m de diâmetro e 1,5 m de altura no centro, no máximo, parte mais alta, onde para minha surpresa estava esticada uma mandala tibetana, com vajras (símbolos de proteção) ao redor. Sendo budista, quando olhei aquilo já me senti em casa. Pensei comigo, “como não sei o que vai rolar, se a coisa apertar para o meu lado e eu apelar para práticas budistas, ninguém vai reparar, né!? Afinal, pelo jeito, somos todos “medio hermanos”.”

O guia, explica que serão 4 portas ou sessões de 15 minutos. Iniciamos a primeira porta e o guia pede para os homens de fogo – pessoas que preparam a fogueira e cuidam para que as pedras estejam devidamente aquecidas – 15 pedras quentes que são colocadas num buraco feito na terra, no meio da tenda. 15 é um dos meus números, certeza que era para eu estar lá.

Depois, Sumay pede às mulheres água, os baldes com um líquido preparado com ervas que serão jogadas nas pedras quentes e produzirão o vapor. Como a primeira era a porta da purificação, do contato com a criança interior, me ocorreu de fazer a prática de Autocura Tântrica Ngalso*. Como a Autocura NgalSo também é dividida em partes, acabei fazendo uma parte da prática em cada uma das 4 portas.

Para minha surpresa, Durante esta porta, num determinado momento, ouvi o guia dizer para as pessoas fazerem o que eu estava fazendo, ou o que ele entendia que eu estava fazendo: “reúnam as energias negativas em bolas e joguem fora”, disse ele. Eu pensei comigo: bom, alguma coisa devo estar fazendo direito. Mas o fato é que fazer a prática de Autocura NgalSo estava me ajudando a focar em outra coisa que não fosse aquele calor insuportável e úmido, que no começo deu medo de respirar e me queimar toda por dentro. Lembro que assim que o vapor ficou forte, aquela lembrança ruim da cerimônia anterior, que eu tentava esquecer voltou rapidinho. Por sincronicidade, tinha acabado de ler um texto de Pema Chodron, onde ela falava sobre a importância de aceitar a realidade do momento presente, principalmente, quando ela é desafiadora, e agradecer a oportunidade do aprendizado. Confesso que ter isso em mente e o foco na prática de Autocura funcionaram como mágica para superar aquele momento onde o calor e a umidade exigiam muito. De repente, fiquei bem e me senti tão confiante, que sabia que conseguiria ir até o fim.

Depois de cantar uma música, o guia pede que se abram as portas, 4 no total. Um ar fresco toma o espaço dando um conforto e alívio imediatos. As pessoas compartilham as suas experiências, fecham-se as portas e vamos para a segunda porta.

Desta vez, eu, já como um gato escaldado, literalmente, estava espertíssima e feliz, achando que a segunda seria mais fácil. Afinal, o elemento surpresa tinha terminado. Parece que o guia leu a minha mente e, de repente, eu ouvi uma sequência de conchas de água serem derramadas sobre as pedras. Pensei comigo mesma: “tô danada!!!” Sabia que aquilo significava que a tenda iria ferver e o meu “eguinho” pensou: já entendi, vou ficar humilde e “pianinho”. Quando já não suportava mais a temperatura e estava começando a me abaixar para ganhar o alívio e o frescor da mãe terra, o guia manda abrir as portas. Que alívio!!!Para melhorar, ainda nos manda para um chuveiro de água fria. Delicia!

Depois de uma breve pausa junto a fogueira, voltamos para dentro da tenda e os rituais se seguiram na terceira e quarta portas, que não irei descrever porque como disse Reinaldo Mendonça, o amigo que meu levou até lá, “o kainapei tem que viver, se entregar”. Se contar antes, perde a graça.

Minha intenção é apenas compartilhar um pouco das expectativas e descobertas desta iniciante em kainapi, uma das práticas de cura mais antigas que se tem notícia. E no meio de tanta sensação nova, a gente sente que tem muita coisa sendo processada dentro. Mesmo as reações do nosso corpo são manifestações concretas do que está acontecendo dentro. Fui fazer o kainapi tentando encontrar algumas respostas. De alguma forma, eu saí desta experiência com tudo claro, agradecida, 50 quilos mais leve e com uma disposição que não entendia da onde vinha. Ou seja, amei.

Terminadas as 4 portas, mais uma ducha, troca de roupa, lanche e a foto do grupo para marcar mais um daqueles preciosos momentos onde pessoas que nunca se viram antes, compartilham uma experiência única e, ao mesmo tempo, tão individual para cada um.

*Autocura Tântrica NgalSo é uma prática meditativa criada por Lama Gangchen Rinpoche, que tem como objetivo o relaxamento do corpo e da mente, através da purificação e transformação dos elementos internos.

Mais informações sobre as cidades onde ocorre, a agenda e como participar de um kainapi, pelo facebook.com/Kainapi.

 

Referências:

Condor Blanco: condorblanco.com

Autocura NgalSo: centrodedharma.com.br/wp/budismo-ngal-so/autocura-ngal-so

 

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

1 Comment

  1. 8 June, 2015 at 17:43 — Reply

    […] se seguiram na terceira e quarta portas, que não irei descrever porque como disse Reinaldo Mendonça, o amigo que meu levou até lá, “o kainapei tem que viver, se entregar”. Se contar antes, perde a graça.

    você já contou muito.

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