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A COISA MAIS PRECIOSA DA VIDA.

Numa tarde de autógrafos do livro “A coisa mais preciosa da Vida”, Monja Coen, mestra do templo Zen Budista Tenzui Zenji, em São Paulo,  contou um pouco da história de Shundô Aoyama Rôshi, autora da publicação e  também foi sua mestra no Japão. Shundô Aoyama Rôshi, que iremos chamar respeitosamente de Sensei (significa mestre em japonês) neste artigo, foi para o monastério com 3 anos, ficar sob os cuidados de uma tia, irmã de seu pai, e se tornou a primeira monja a alcançar o grau de Grande Mestra Superiora, dentro da tradição Shotô-Shu.

Nossa preciosa sensei brasileira, Monja Coen, falou sobre a vida no monastério em Nagoya, no Japão, sobre a sua relação com a sua Sensei japonesa, e compartilhou os seus aprendizados como a oradora e contadora de histórias que só ela sabe ser.

Inicia a palestra com uma breve meditação e explica: “a meditação ajuda a entender esse universo a partir do qual ela (Sensei) fala. Ela não fala do mundo comum, do modo comum que nós vemos, mas ela fala de um mundo comum, de uma maneira comum para uma pessoa que medita há muitos anos. Ela é uma pessoa que podemos dizer que acessou a mente búdica, a mente iluminada, a mente que vê com clareza a realidade e, por isso, sabe discernir o que é adequado fazer em determinada circunstância. E é muito importante isso, porque às vezes temos uma ideia de que uma pessoa muito espiritualizada é muito separada da realidade e ela era uma pessoa muito terrena.”

Quando Monja Coen chegou ao mosteiro em Nagoya, vindo de um mosteiro nos EUA, a primeira coisa que a Sensei deixou claro é que todos ali eram seres humanos e não anjos, e que a prática era que todas as pessoas ali, eram colocadas em uma jarrinha que era sacudida, por isso, as pessoas batiam suas pontas uma na outra, e aquela que arredondasse as suas pontas primeiro não iria ferir e não iria ser ferida.

Monja Coen ressalta que isso não acontece só em um mosteiro e acontece também na nossa vida. “Se a gente sai muito cheia de pontas – você falou pra mim, eu falo pra você, eu ataco, eu respondo a tudo o que vem a mim de forma pontuda, agressiva – eu vou ferir pessoas e também vou receber pontadas de volta. Mas se eu me faço redondinha, não dou pontada em ninguém e também quando alguém me dá uma pontada ela passa pelas bordas, não perfura porque não tem superfície para ficar.”
“E eu fui aprendendo através da prática, com ela, como ainda tinham arestas a serem polidas. Sensei sempre foi um exemplo para as monjas de alguém que se dedica integralmente a sua vocação. Atendia pessoas quase o dia todo, inclusive, nós monjas, que éramos quase 20, e que íamos bater na porta dela para reclamar de tudo, “que a vida não estava boa, aquela menina não me tratava bem….”. E ela ria. Eu estava muito aflita com os meus dramas e as minhas questões e ela ria. Eu achava que ela não me entendia. Eu estava com problemas graves e ela ria”, continua.

Monja Coen conta sobre as dificuldades de se aprender a viver em comunidade, num mosteiro no Japão, onde a cultura é muito diferente e as pessoas não nos entendem. Até a linguagem corporal é muito diferente. E dá exemplos de como é importante utilizar as áreas comuns, como uma sala de banho comunitária, pensando no outro, deixando o local sempre limpo e arrumado da primeira à última pessoa que utiliza o local, que no caso era a Sensei, que fazia questão de ser a última para ver como cuidávamos do espaço. “Ela também era a última a dormir e dava para perceber que dormia em paz porque sua cama parecia que mal havia sido usada de manhã”, comenta.
Monja Coen conta que uma vez foi reclamar, que uma das meninas estava dormindo na palestra e Sensei disse: “não é da sua conta, o que você tem a ver com o sono da outra. Cuide de você”.

“E eu levei muito tempo para entendê-la. Eu achava que ela não me entendia, mas fui eu quem demorou compreende-la. Quando estava quase para sair do mosteiro ela me disse: não seja como o gelo que não entra no copo, seja como a água que toma a forma do vaso que contém. E eu disse para ela: então a senhora que derreta o meu gelo. Ela respondeu: eu não, quem derrete o seu gelo são os ensinamentos de Buddha, não sou eu.”

“Este é um aspecto muito importante porque às vezes a gente acha que vai encontrar um mestre, uma mestra, um guru que vai derreter o meu gelo, me levar a iluminação. E ninguém vai nos levar a iluminação. Nós temos que chegar lá. Os mestres, os gurus, os textos sagrados, nos apontam uma direção para que nós possamos ir nesta direção e alcançar esta luz, mas ninguém pode nos levar lá. É um caminho que cada um tem que fazer por si mesmo. E se não houver prática, não há iluminação. Não cai do céu”, continua.
“A abadessa tem muitos livros, todos baseadas nas suas experiências pessoais do cotidiano, nos trazendo esta realidade iluminada da importância de cada um de nós na vida. E quando nós percebemos esta importância, nós ficamos com mais energia, mais alegria de viver.”

“O nome do livro original,tinha um subtítulo em japonês que era “outra face minha”, ou seja, outro aspecto de mim mesma. Eu vou me descobrindo e redescobrindo o tempo todo, não sou sempre a mesma. Cada vez que eu escrevo um livro, faço uma palestra, cada vez que me manifesto ou encontro alguém, é um outro aspecto meu que é provocado e que surge. Ela tinha esta habilidade de perceber e abrir mão de dizer “eu estou fazendo porque eu sou assim”. É um eu não eu.É um outro olhar meu sobre a realidade, esta realidade que é preciosa. Como é que eu aprecio a minha vida e a morte. Porque nós achamos que a vida se opõem a morte, mas não, são coisas que funcionam juntas, não dá para separá-las. Ela sempre dizia nas cerimônias fúnebres, que oportunidade estávamos tendo para compreender a impermanência e observar que é o eu menor e egoísta que se lamenta”, comenta.

Monja Coen também conta a história emocionante de como a mãe de Sensei, sendo uma senhora simples que nunca tinha saído da sua cidade, fez algo que nunca havia feito na vida ao pegar todos os transportes necessários para ir visitar a filha no monastério, no dia do seu aniversário, e mesmo tendo vontade de levá-la para casa, viu Sensei tão feliz, que resolveu deixá-la seguir o seu caminho. Anos depois, disse a filha: “se você fosse um bichinho, eu teria colocado você em uma coleirinha e levado para casa de volta comigo porque sentia saudades. Mas você era um ser humano e estava feliz. Então, eu deixei você lá.” E esta mãe depois foi se especializar e trabalhar com bicho da seda para fazer quimonos (vestimentas japonesas) para a filha. Ela deixou a filha lá, mas passou a vida tecendo roupas para a filha. Até hoje, Sensei tem um quimono que a mãe fez para ela, que diz só usar em ocasiões especiais, quando acha que uma situação é difícil ou meio constrangedora: “eu uso a roupinha que minha mãe teceu, pois eu me sinto protegida”, disse Sensei a amigas.

Monja Coen relata que Sensei tinha uma pedagogia de muita severidade e, ao mesmo tempo, muita leveza. Certa vez, para que ela aprendesse rapidamente o japonês, fez com que ela estudasse no horário da meditação, que era a atividade que mais gostava. Sabia que desta forma ela aprenderia mais rápido para que pudesse voltar logo a fazer o mais gostava.
“E ela era tão correta nas suas ações que a gente se envergonhava. Lembro quando ela me corrigia pela décima vez e repetia sempre a mesma coisa, da mesma forma gentil. Ela perdia a paciência, mas nunca a compostura. E isso é treino de anos, deste perceber a si mesmo, porque a gente gosta de perceber o outro. E isso nos faz pensar sobre o que eu quero estimular em mim, o que eu quero estimular nos outros e o que eu permito que os outros estimulem em mim”, ressalta Monja Coen.

Olhar de forma mais profunda os fatos do cotidiano, através dos ensinamentos budistas e da meditação, são a essência dos livros de Sensei, que Monja Coen tem a gentileza de compartilhar com os brasileiros. Arigatô!

 

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

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