Crescimento Pessoal

A QUALIDADE DO DEFEITO

Existe algo que seja totalmente errado ou inútil? Eu já tive certeza que sim. Entretanto, me debatendo com a questão da sombra, aquela parte de nós que fica na penumbra, que funciona como um autossabotador inconsciente e que se reproduz como “defeito” na vida real, descobri que não. Tudo funciona em perfeita ordem e os “defeitos” só viram problemas quando não lhe damos a atenção que merecem, quando os deixamos no escuro e os ignoramos.

Muitos já devem ter ouvido falar nas camadas da cebola, que a gente vai tirando no caminho do autoconhecimento. O que talvez poucos tenham conhecimento é que durante esta jornada iremos nos deparar com a existência de sentimentos indesejáveis dentro de nós, como raiva, inveja, ciúmes, vaidade, egoísmo, avareza e muitos outros que não queremos nos dar conta. Estes sentimentos são como párias, banidos pela sociedade, mas que todo mundo ou a grande maioria carrega e que possuem uma função. Acreditem ou não, são uma espécie de defesa para o nosso ego, que apesar de ser outra palavrinha mal falada nos dias atuais, também tem um importante papel na nossa vida. É através desta família pouco compreendida de palavras que acionamos os nossos mecanismos de sobrevivência.

Esta nossa mania de separar as coisas entre mocinhos e bandidos, fez com que renegássemos parte de nós mesmos, causando um grande conflito interno que só aumenta o prejuízo. Mas compreender isso é um processo longo porque em nossa cultura, existe algo muito arraigado que nos leva a desejar ser a perfeição encarnada, mesmo sabendo racionalmente que isso não é possível ou verdade.

A minha “ficha começou a cair” quando, por exemplo, realizei que a raiva era uma alavanca que tirava um ser do estado de medo profundo e que quanto maior a agressividade, maior a dor. Ela é a forma de energia que precisa atuar em determinadas situações para que os cenários mudem. A raiva pode não ser o melhor caminho, mas em determinados momentos ela vira o último recurso, como no caso de uma mãe defendendo os filhotes de predadores.

Mais para frente, um dia me deparei com a Revista Mente e Cérebro, que tinha na capa a palavra INVEJA. Hummm, coisa feia inveja, né?!? Mas pode ter certeza que sentimos inveja. Ter inveja não faz de ninguém um marginal. Agora, roubar ou mentir por inveja, daí sim são outros quinhentos. O sentimento não é o problema, mas o que se faz com ele pode se tornar um. A matéria também comentava sobre os benefícios de sentir inveja, em como ela é um incentivador para o crescimento, para a nossa melhoria pessoal.

Um exemplo corriqueiro de como isso pode ocorrer e a forma como nos auto-enganamos. Para maioria de nós é mais fácil criticar os atos de quem assume algum tipo de posição de responsabilidade e liderança do que ir lá, tomar o lugar e fazer. Isso não quer dizer que a crítica não seja válida e necessária, mas a forma como lidamos, os sentimentos e as reações que vem junto esta, são muito mais importantes para o nosso crescimento do que os fatos em si.

Na maioria dos casos, a crítica vem da atuação inconsciente de sentimentos como a inveja e a vaidade, que se alimentam porque não estamos na posição de poder que, no fundo, gostaríamos de estar. Assim como também podemos nos sentir vítimas da situação. E vários podem ser os motivos: sensação de impotência, insegurança, falta de coragem, entre muitos outros. Indo mais além, tudo isso pode ser resultado de termos medo de encarar que não somos bons o suficiente, ou seja, de termos a nossa autoimagem estilhaçada como vidro. Por outro lado, se temos consciência que a nossa crítica vem da inveja, da vaidade ou o que seja, o mais provável é que começaríamos a gastar mais energia em nos melhorarmos a fim de suprir as nossas vulnerabilidades porque só assim, conseguiríamos ter mais e melhores condições, nos sentiríamos mais fortes para mudar a realidade externa.

Então, aonde reside o problema: em sentirmos inveja ou em preferirmos mantê-la escondida de nós mesmos para não precisar tomar providências a respeito?

O fato é que tudo o que existe na vida, existe por algum motivo. Está a serviço de algo. O problema é que quando não compreendemos estes mecanismos, as coisas podem sair do controle, e se transformam no monstro que come a mão do dono que o alimenta. O ponto deveria ser o do equilíbrio porque mesmo o amor e o cuidado, em excesso, ninguém aguenta. E para ter equilíbrio é preciso ter consciência dos nossos processos internos, para perceber quando cada sentimento ou emoção está atuando na nossa vida. Esta tomada de consciência não é tarefa fácil. Por isso, e por via das dúvidas, é melhor ter cuidado para não condenar cedo demais e julgar sem completo conhecimento de causa, porque toda a vez que fazemos isso, estamos dando um sinal inconsciente de reprovação a nós mesmos. No fundo, conhecemos as mentiras que contamos para nós mesmos para esconder a culpa e a vergonha, mesmo que seja de forma inconsciente.

Há décadas, a ciência vem fazendo vários estudos sobre porque fabricamos e, muitas vezes, acreditamos nas nossas próprias mentiras. Segue um trecho de um artigo da Mente e Cérebro, entitulado “Mentirosos inatos”*:

“A pergunta óbvia que todo esse relato suscita é: por que mentimos com tanta facilidade? E a resposta: porque funciona. O Homo sapiens que melhor consegue mentir leva vantagem sobre seus pares na luta incansável para o sucesso reprodutivo que move a máquina da evolução.
Como humanos, devemos nos enquadrar em um sistema social fechado para sermos bem-sucedidos, ainda que nosso alvo principal seja nos colocarmos acima de todos os demais. Mentir ajuda. E mentir para nós mesmos – um talento desenvolvido por nosso cérebro – ajuda-nos a aceitar nosso comportamento fraudulento.”

Outras teorias relatam que a Mente mente para economizar energia e a maioria das pessoas (80% dos estudados) tem uma tendência de ver as coisas com otimismo . Ou seja, torna a vida mais fácil ver o que queremos do que encararmos a realidade. Porém, aquela parte mais profunda de nós que busca a verdade começa a produzir fatos para chamar a nossa atenção.

E é desta forma que os padrões de comportamento e resultados indesejados se repetem. Sem consciência do que nos torna humanos, do que é SER um ser humano em sua completude, fica difícil entender como funciona o mundo, como somos interdependentes e como a vida é cheia de paradoxos. São os paradoxos que colocam tudo em movimento, inclusive a criação. Tudo aquilo que existe faz parte da nossa natureza, por isso, somos UM. Quando tentamos eliminar o que consideramos serem as “pragas” humanas ou extinguimos propositalmente algumas espécies da fauna e da flora, estamos eliminando parte da natureza e causaremos desequilíbrio. Até temo em dizer que, quando não aceitamos tudo o que somos e tentamos eliminar alguma parte deste todo, estamos plantando uma semente para algo muito pior nascer no lugar.

E por último, mas muito importante, sem a consciência das qualidades dos nossos defeitos, a tarefa de nos perdoarmos para seguir em frente se torna muito mais difícil.  O primeiro passo para podermos dar o salto quântico, que nos levará a um outro patamar de civilização é aprender a nos amar como somos. Daí nascerá a verdadeira compaixão, o amor incondicional e a paz que tanto almejamos.

Para quem quiser tentar adquirir um pouco mais de consciência sobre a qualidade dos nossos defeitos, o que segue abaixo talvez possa ajudar:

1. Faça exercícios que fortaleçam o foco para manter um estado de presença na realidade atual. Observe os pensamentos e sentimentos sem julgamento para que eles não queiram se esconder em algum canto escuro.
2. Analise os seus problemas de saúde. Perceba quais as emoções e sentimentos negados que o corpo está absorvendo e manifestando. A doença aparece quando o “defeito” está se apresentando da forma mais radical.
3. Tente compreender se dentro dos padrões de comportamento que levam a resultados indesejados, existe algum sentimento comum (aquele gosto amargo que fica na boca), qual a sua origem e como eles estão servindo dentro do seu sistema de sobrevivência.
4. Perceba se estas sensações fazem sentido racional ou apenas são apenas construções mentais e estão sendo motivados por dores do passado. Se forem reais no momento presente, pondere a respeito dos sinais que estão sendo emitidos sobre as suas vulnerabilidades, pontos que cabem um esforço para mudar.
5. Tome a decisão de fazer algo a respeito e fortalecer os pontos fracos. Assim as partes, antes negadas, não precisarão mais continuar se manifestando de forma a prejudicar. Quando se toma uma atitude construtiva, a raiva, a inveja, a cobiça, todas estas palavras renegadas se tornam suas amigas.

Finalizando, para ajudar a mudar a chave na mente que classificou as coisas como separadas, boas ou ruins dentro do enraizado sistema dual, deixo uma pergunta banal, mas que parece aumentar a percepção das pessoas em relação à forma como qualificamos as coisas: entre quente e frio, qual é o bom e qual é o ruim?

 

*http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/mentirosos_inatos.html

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

1 Comment

  1. Thais Abrahao
    2 May, 2015 at 13:23 — Reply

    Queridos,
    Adorei as matérias, todas muito bem direcionadas sem propagandas e todas bem objetivas.
    Parabéns!

    Namaste

    Thais

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