Meditação

10 DIAS DE SILÊNCIO

Durante um período sabático, no ano de 2003, o brasileiro Felipe Batho, 44 anos, gestor de fortunas, e sua esposa, a artista plástica francesa Elisabeth, percorreram a Ásia passando por países como Indonésia, Nepal, Tailândia, Tibet, Birmânia, Vietnam, Laos e Cambodia. Nesta época, tiveram a oportunidade de vivenciar por duas vezes, o Vipassana, uma prática de meditação budista.
Uma delas num dos centros de meditação do mestre Goenka na Tailândia e, outra, num monastério no Nepal.
Atualmente, o casal mora na França com suas 2 filhas e, numa passagem rápida pelo Brasil, Felipe conversou conosco sobre esta experiência.

FELIPE-BATHO

VM: Por que você resolveu buscar ou o que te atraiu no Vipassana?
FB: Foi recomendado pela irmã da Elisabeth, que morava no Nepal na época, e nos contou a experiência dela sobre o método. Então nós resolvemos experimentar. Nós estávamos numa época de limpeza pessoal, de troca, de mudança e decidimos encarar a experiência como uma limpeza física e mental.

VM: Como foi quando vocês chegaram lá? Conte um pouco um pouco sobre a expectativa de vocês.
FB: Como ocidentais, chegamos com uma expectativa maior em termos de conforto e de acompanhamento. Esperamos ter um instrutor que te fale faça isso, faça aquilo, faça tal dever de casa, faça tal exercício. E, lá, a imersão é completa e imediata.
Você tem um dia para chegar, se instalar, arrumar tudo e para te explicarem as regras. Após o dia da entrada, são 10 dias seguidos e ininterruptos de meditação, cujo termo utilizado é “Silêncio Nobre” (em inglês, “Noble Silence”). No 12º e último dia, acaba a meditação e você fica conversando dentro do pátio interno com as pessoas do grupo, assim você não sai na rua direto para não ter um choque muito grande. Nos 10 dias intermediários entre o 1° e o 12° é meditação pura.

VM: E como é o método do mestre Goenka?
FB: Neste método, em primeiro lugar, deve-se seguir a regra do Silêncio Nobre. Você não pode falar, nem se comunicar, 24 horas por dia. Homens e mulheres ficam separados. Idealmente, você não deve nem olhar nos olhos porque você transmite muita coisa no olhar. Tem que respeitar os outros e vice-versa. Em caso de extrema necessidade, existem os chefes de seção que podem ser procurados porque eles não estão meditando. E, se a pessoa não estiver aguentando, pode pedir para ser retirada, através destes chefes de seção, sem atrapalhar os outros participantes.

Em termos práticos, você acorda as 4h00 e medita até as 6h00 e daí tem o café da manhã. Depois do café-da-manhã, você volta a meditar. Ao meio-dia, tem o almoço e, depois, o retorno à meditação até as 18h00-20h00, com pausas de 15 minutos a cada hora. Não há jantar. No final do dia, você assiste a um vídeo de 1 hora, que no centro que atendemos ainda era um vídeo cassete antigo, tipo VHS, onde o professor Goenka explicava o que você estava sentindo, dia por dia, todos os dias. Este vídeo foi gravado em 1978, mais ou menos, se minha memória estiver correta.

VM: E o que mestre Goenka falava no vídeo correspondia ao que você sentia?
FB: Exatamente. Na veia. Para mim e para os demais participantes, acredito eu. Este vídeo foi gravado com vários intuitos. Primeiro para que os professores de cada local não fizessem a sua interpretação pessoal do que aconteceria conosco e segundo para manter uniformidade no ensinamento e transmissão dos conceitos básicos, entre outras coisas. Mestre Goenka liderou uma sessão de 10 dias de meditação e gravou, todos os dias, o que aconteceu com ele e seus alunos.

VM: Eles dão alguma orientação de como fazer a meditação antes?
FB: Sim. Em poucas linhas, a maior orientação é de prestar atenção na sua respiração. Na sua inspiração e expiração pelo nariz. O objetivo é de desbloquear seus “nós de emoção” e, à medida que a prática progride, o intuito é de fazer com que a energia flua livremente no seu corpo, que está se limpando de suas impurezas. Só que a sua mente vai lutar contra isso. Você começa a se fazer perguntas do tipo “o que estou fazendo aqui?”, ou “Você é um maluco, tem que sair”. Você está sentado numa almofada pequena, em “posição de Buda”, de pernas cruzadas, e depois da primeira meia hora do primeiro dia, você já tem dor no joelho, dor nas costas, formigamento em todos lados. Então, sua mente começa a lutar contra isso.

VM: Quanto tempo você demorou para incorporar a prática da meditação?
FB: No meu caso, não posso dizer que tenha incorporado na primeira experiência, nem na segunda, mas ambas em conjunto ofereceram uma base importante para meu futuro pessoal. Vejo ambas as experiências mais como degraus ou uma caminhada até um objetivo, e você melhora a cada passo dado pelo caminho.
Conforme vão passando os dias e assistindo o vídeo, o Mestre Goenka vai explicando o que está acontecendo: “no primeiro dia você estava feliz, era uma nova experiência e na sua cabeça o seu cérebro te dizia isso e aquilo, e você está animado. No segundo dia, bom no segundo dia você não está tão feliz porque acordou as 4h00 e não jantou no dia anterior, está cansado e seu corpo tem dores musculares, falta energia e, então, realmente, você não está mais tão feliz. No terceiro dia, há 2 dias você acorda as 4 da manhã, dorme numa cama de madeira e sem colchão. Você não sabe quem são as pessoas no dormitório, não pode falar e não pode fazer perguntas. Você veio com sua esposa e não sabe o que está acontecendo do outro lado com ela (ela continua? Ela saiu do centro?) e, então, você já começa a ficar bastante preocupado.
No 4° dia, já fazem 3 dias que você acorda às 4h00 e toma um café-da-manhã, que não é exatamente o que você queria. O seu cérebro e o seu ego começam a jogar sério com você psicológica e emocionalmente.
Faço um parêntese para ressaltar que as dores são diferentes em grau e localização para cada participante. Se me recordo bem, no Vipassana de mestre Goenka, essas dores são comparadas a “nós de emoções”, traumatismos de infância, experiências de vida não resolvidas, que afligem de forma e grau diferente cada um de nós.
Um dos objetivos da prática é “desbloquear” estes pontos, limpar a mente e o corpo. Os monges saem de manhã com suas tigelas (“alms bowls”) pela cidade e as doações, que recebem dos fiéis são o café da manhã e o almoço de todos, o seu e o deles. É comum para os comerciantes locais doarem mercadorias e comidas, e não apenas dinheiro.

VM: São as refeições dos visitantes também?
FB: A nossa também. Não temos escolha. Faz parte do ensinamento, da experiência e dos 12 dias de meditação. Se o monge ganhou castanha de caju, será castanha de caju para o almoço e, faz parte, agradecer por isso. Se é macarrão é macarrão, e se é arroz é arroz. As doações feitas aos monges são de produtos e frutas locais. Não adianta achar que vai ter frango no espeto ou bolo de chocolate.
Tem que se adaptar e passar por isso. No quinto dia você está “fulo”, sem internet, sem telefone, não sabe o que está ocorrendo lá fora. Você está cheio e começa a dizer para você mesmo que está perdendo 5 dias da sua vida lá dentro. Mas essa é a chave da meditação. Hoje em dia, muitos veriam e já aceitariam, que 5 dias sem internet, seria uma benção enorme. Tudo isso é para seu bem interno e pessoal. E tudo corresponde exatamente com que o mestre Goenka vai explicando no vídeo, o que você está sentindo dia após dia. O vídeo é traduzido em várias línguas como o alemão, o espanhol e o inglês, que era o que eu assistia. Já deve existir uma versão em português, pois abriu um centro no Brasil. Conforme mestre Goenka vai falando no vídeo, você pensa: “cara, era eu, eu estava sentindo isso aí…”. E sem dúvida nenhuma a pessoa ao seu lado estava sentindo a mesma coisa.

VM: Daí, terminam os 10 dias…
FB: Terminam os 10 dias de meditação. O 12º dia é um dia livre. Você ainda fica no complexo, mas conversando entre os participantes. Na primeira vez saímos ao final do 12 º dia, na segunda, foi na manhã do 13° dia.

VM: Conte um pouco desta sua segunda experiência com o Vipassana.
FB: Nós fizemos um retiro em Katmandu e, 6 meses depois, continuando a viagem chegamos na Tailândia, onde conversando com outros viajantes mochileiros descobrimos um mosteiro que fazia o Vipassana. Fomos pedir permissão para participar e eles nos aceitaram.
Na segunda vez, o nosso objetivo era aprofundar mais nas técnicas de Vipássana, desobstruir os “nós ” para que a energia pudesse circular livremente no corpo. Como posso resumir isso? Da primeira vez, quando saímos, sabíamos imediatamente que tinha sido uma das experiências físicas e espirituais mais marcantes pela qual passamos. A reação inicial foi: nunca mais! Mas aí, você começa a pensar: se foi tão difícil assim, tinha muita coisa pra ser resolvida, né?! Será que a segunda vai ser igual? Como posso construir e melhorar com base na primeira experiência?

VM: Mas voltando para o que você disse, anteriormente, na primeira experiência, passou 10 dias lutando para controlar o seu corpo, o que é até compreensível. Na segunda vez, no 13º dia, qual foi a sua conclusão do processo?
FB: É esta sensação que você gasta uma energia impressionante tentando controlar a sua mente e os seus desejos. E que as frustrações da nossa vida atual resultam em vários “bloqueios emocionais”. A limpeza da mente e destes bloqueios permitem que a energia circule mais livremente nos nossos corpos. Um outro objetivo do Vipassana é nos ensinar a fazer cada gesto do nosso cotidiano com consciência e presença, e é muito óbvio observar que como estamos muito distantes disso.

VM: No final, você acha que este esforço de controlar a mente e os seus desejos foi maior do que controlar a dor física?
FB: Maior, muito maior. O esforço mental é gigantesco. É a mente que grita e diz pra você que está com dor, com formigamento, etc. Você quer uma solução rápida. Estamos acostumados com tudo rápido hoje em dia: internet, banda larga, etc. Mas no fundo, no fundo, tudo isto é emocional e psicológico. Soluções rápidas não são duradouras. Veja a própria metodologia do Vipássana. Quem tem 12 dias livres hoje? Livres de família e trabalho para se dedicar a isso. Tem que querer. Tem que saber porque se esta indo. Depois destes dois retiros, para nós ficou claro que a nossa sociedade está completamente errada. Nós aprendemos a limpar tudo o que é externo, a roupa, a casa, o carro, mas não aprendemos a limpar a nossa mente, o nosso espírito, o que é o mais sagrado e importante para nossa vida.

VM: Você faria de novo?
FB: Facilmente, eu faria de novo. Saberia que seria difícil, mas faria.

VM: Quantas pessoas tinham na prática?
FB: No Nepal muitas, pelo menos umas 200, o centro era maior. Na Tailândia o grupo era menor, talvez umas 100 pessoas.

VM: E quanto custa o Vipássana nos locais onde você fez?
FB: Foi gratuito. Na saída, eles lhe convidam a fazer uma doação. Acredito que deva continuar sendo assim nos centros Vipássana do mestre Goenka. As pessoas devem se informar primeiro. Na verdade, tem que ser gratuito, pelo princípio do sistema. A partir do momento que você paga, você pode achar que tem o direito de reclamar, pois está pagando por algo. Então, se você pagar 100 reais pelos 10 dias, ou 500 ou 1000, não importa a quantia, começará a reclamar da cama dura, da comida, do banheiro. A partir do momento que é gratuito, você está fazendo por você, pelo seu crescimento pessoal. Como não há vínculos monetários no processo, tanto eles podem te convidar a sair se sua conduta não for correta, bem como, você pode sair se não quiser seguir em frente. Há uma necessidade de liberdade total, pelo princípio do programa. E liberdade não tem preço! As coisas precisam ser vistas como elas realmente são. As coisas de maior valor nas nossas vidas não têm preço.

No final do programa, no seu dia de saída, você é convidado a doar o quanto você quiser. Se foi bom para você e quer doar, muito obrigado. Muito, ou pouco, não importa, é bem vindo. É o mesmo principio da doação da comida, que os monges recebem toda manhã pela cidade com suas simples tigelas. Se você não concorda com o que passou e não quer doar nada pode ir, ninguém vai lhe impedir, nem cobrar nada. Tudo é feito gratuitamente e isso é extremamente importante e gratificante.

Sobre o Vipassana
Vipassana, que significa ver as coisas como realmente são, é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia. Foi redescoberta por Buda Gautama há mais de 2500 anos e ensinada por ele como um remédio universal para males universais. Essa técnica não sectária visa a total erradicação das impurezas mentais e a resultante suprema felicidade da liberação completa.

A cura, não a mera cura de doenças, mas a cura essencial do sofrimento humano, é o seu propósito. Vipassana é um caminho de autotransformação que utiliza a auto-observação. Foca a profunda interconexão entre mente e corpo, que pode ser experimentada diretamente pela atenção disciplinada às sensações físicas, que, por sua vez, constituem a vida do corpo e continuamente se interconectam e permitem a vida da mente. É essa jornada de autoconhecimento baseada na observação — que objetiva a raiz comum da mente e do corpo — a responsável pela dissolução das impurezas mentais, resultando numa mente em equilíbrio, cheia de amor e compaixão.

Seu renomado líder espiritual e guru de Vipassana Satya Narayan Goenka morreu devido à idade avançada, aos 89 anos, em 29 de setembro de 2013. Nascido em 30 de janeiro de 1924, em Burma (agora Myanmar), Goenka aprendeu o Vipassana com Sayagyi U Ba Khin, um aclamado professor e administrador, de quem recebeu treinamento por 14 anos. Mais tarde, ele mudou-se para a Índia e fez a técnica popular em todo o mundo através de um movimento não-sectário.

Saiba mais em:

www.dhamma.org

www.indianexpress.com

goindia.about.com

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Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Após mais de 20 anos no caminho do autoconhecimento e da espiritualidade, resolveu compartilhar suas visões e experiências pessoais, frutos das práticas de meditação, através de seus artigos. Seus muitos anos como profissional das áreas de marketing e comunicação são a base desta sua vontade de se comunicar, agora, com um propósito maior.
Vamos Meditar concretiza este sonho, que está se realizando e que dedica a todos os seres. Também dá aulas particulares de meditação e atende com terapias integrativas para quem quer seguir o caminho do autoconhecimento e da espiritualidade.
Contato pelo email: anackoda@gmail.com

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